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Qual a relação entre o cigarro e o cinema. E como ela mudou ao longo dos anos (29/7/2017)
Nexo

http://bit.ly/CinemaCigarro

 É difícil saber se o hábito de fumar depois do sexo já existia antes do cinema, especialmente do cinema comercial americano, ou se foi inventado por ele. Mas é possível dizer que foi o cinema que difundiu mais amplamente essa associação e, para além disso, transformou o cigarro em algo “cool” desde a era do cinema mudo, no início do século 20. Mais tarde, já na década de 1970, quando campanhas antitabagistas ganharam força, algumas produções também assumiram o papel de representá-lo como um hábito nocivo, ou simplesmente deixaram de mostrar pessoas fumando.

Assim, o cinema é, também, um termômetro para a alta ou baixa do tabagismo, e do poder da indústria do cigarro. Recentemente, por exemplo, ele esteve em alta nos EUA. É o que indica um estudo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças do governo americano, divulgado no dia 11 de julho. O estudo mostra que, entre 2010 e 2016, a representação de pessoas fumando cresceu 72% nos filmes de maior bilheteria produzidos nos EUA. As causas para esse crescimento não são exploradas pela pesquisa. A alta na representação de pessoas fumando preocupa autoridades de saúde pública, uma vez que diversos estudos mostram que, ao representarem pessoas fumando, os filmes aumentam a probabilidade de que a população mais jovem comece a fumar.

A construção do glamour de fumar “Scene Smoking: Cigarettes, Cinema and the Myth of Cool” (Fumando em cena: cigarros, cinema e o mito do ‘cool’, em uma tradução livre), é um documentário de 2001 dirigido por Terry Moloney. Em um depoimento para o filme, o ator americano Jason Patric diz que as pessoas não fumam na vida real como se fuma no cinema. “Não me refiro à frequência, mas à forma como é feito, como é filmado”, disse. O documentário afirma que, desde os filmes mudos, o ato de fumar um cigarro, charuto ou cachimbo foi retratado no cinema como sofisticado e glamuroso. Ao longo de várias décadas do século 20, os filmes americanos não podiam contar com longas cenas de beijos, muito menos com cenas de sexo, devido ao controle da censura. Por conta disso, fumar se tornou um código, um recurso narrativo de Hollywood para fazer alusão à relação sexual.

Nessa época, segundo uma reportagem da revista Superinteressante, “toda estrela tinha pelo menos uma foto no portfólio segurando um cigarro”. “Aos poucos, a associação cinema-cigarro profissionalizou-se: entre 1978 e 1988, 188 atores e diretores receberam cachê para incluir baforadas nos filmes”, afirma o artigo da revista. “Documentos internos das indústrias de tabaco revelaram contratos comerciais celebrados entre a indústria fumageira e a do cinema para inclusão de marcas de produtos e de cenas com seu consumo, tornando os filmes uma oportunidade de transformar um produto mortal em um ideal desejável de glamour, modernidade e sucesso.”

Rosa Vargas, Ruth Machado Barbosa e Frederico Augusto Tavares No estudo “Ilusão das imagens: olhar psicossocial sobre fumar nos filmes brasileiros” Ascensão e queda A associação entre o tabagismo e a incidência de câncer de pulmão na população começou a ser provada por pesquisadores a partir da década de 1950, o que impulsionou a criação de campanhas antifumo, medidas regulatórias para a TV, cinema e publicidade e outras estratégias de controle do uso de tabaco por parte dos Estados. Em 1965, 42% da população adulta dos Estados Unidos era fumante, segundo o Departamento de Saúde do governo americano. Em 1967, as emissoras de TV passaram a ser obrigadas a reservar tempo de sua programação para veicular campanhas anti-cigarro. Em 1971, propagandas de cigarro foram banidas da TV americana. Em muitos países, o maço de cigarro ficou mais caro, e a proibição de fumar em espaços coletivos virou lei. Antes, quase todos os lugares fechados, de restaurantes e bares a aviões e salas de cinema, admitiam que se fumasse.

O cinema também foi obrigado a se adaptar às novas normas. Em 1988, o governo americano proibiu a prática dos cachês pagos aos atores para fumarem em cena, mas isso não extinguiu a representação do cigarro nas telas. Um estudo publicado em janeiro de 2017 no jornal de medicina do Reino Unido BMJ analisou 24 filmes da franquia americana “007”, de 1962 a 2015, e concluiu que em apenas um deles não havia nenhuma imagem relacionada ao ato de fumar. A franquia foi escolhida por ser a mais longeva e lucrativa do cinema mundial. A pesquisa também mostra que o auge das cenas que exibiam o espião fumando aconteceu nos anos 1960, quando ele deu tragadas e baforadas em 83% dos 007 produzidos na década – seis, no total. As aparições de Bond fumando foram diminuindo nas décadas seguintes, até 2002, quando ele deu sua última tragada nas telas em “Um Novo Dia para Morrer”.

Ainda sim, ele continuou sendo um fumante passivo em produções subsequentes, contracenando com personagens fumantes. As tentativas de conter as aparições do cigarro nas telas esbarram no debate sobre liberdade de expressão. Se o dado que o personagem fuma é relevante para sua construção ou para a cena, ele deveria ser proibido de fazê-lo? As restrições normalmente são proporcionais ao público alvo do filme em questão: uma animação em que um personagem fume, por exemplo, provavelmente receberá uma classificação indicativa para um público mais velho do que o gênero normalmente receberia. As imagens de cigarro são consideradas pela Motion Picture Association of America, associação responsável pela classificação etária dos filmes, desde 2017. A maioria dos filmes com cenas de cigarro recebe classificação indicativa de 16 anos, segundo Chris Ortman, porta-voz da associação.

Qual o impacto das cenas com cigarro Um estudo lançado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2015 resume o conhecimento científico que se tem, até o presente, sobre a influência das imagens cinematográficas com cenas de produtos e de uso de tabaco sobre os indivíduos e a sociedade. As evidências reunidas pela OMS inclui alguns estudos cerebrais. Em um deles, quando participantes assistiram a trechos de filmes que incluíam adultos fumantes destros, o cérebro era estimulado nas regiões cerebrais associadas ao desejo, assim como nas áreas encarregadas de planejar o movimento da mão direita. Esse resultado sugere que assistir a um ator fumar não só instiga o desejo, mas ativamente prepara o cérebro para acender um cigarro.

 
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