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SEMINÁRIO SOBRE TABAGISMO E GÊNERO

ACT apoia projetos de controle de tabagismo e gênero

A ACT, em parceria com as organizações canadenses RITC – Research for International Tobacco Control HealthBridge, está apoiando seis projetos de pesquisas sobre controle do tabagismo relacionados com questões de gênero. Este é o resultado de um seminário sobre tabagismo e gênero, realizado em março, no Rio de Janeiro.  O encontro reuniu cerca de 20 representantes de organizações não governamentais e governamentais, no Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar a participação, a credibilidade e o papel da sociedade civil organizada no controle do tabagismo e sua interface com as relações de gênero no país. 

Na ocasião, foi lançado um edital visando promover estudos científicos, que contemplassem a perspectiva de gênero e contribuíssem para o trabalho de advocacy, na formulação de políticas públicas dirigidas ao controle do tabaco no Brasil. As pesquisas deveriam levar em consideração as relações de gênero em suas propostas, seja no objetivo geral da proposta ou num de seus objetivos específicos.

O Comitê de Seleção, composto por especialistas em controle do tabagismo, analisou as propostas, que obedeceram a critérios tais como coerência entre objetivos e metodologia; Inovação e originalidade na área de estudo; compatibilidade entre metodologia, atividade e prazo de execução; coerência da previsão orçamentária com os objetivos, atividades e resultados esperados; adequação temática e relevância para advocacy.

Os selecionados foram:

  • Instituto Terra, Trabalho e Cidadania – ITTC:  “Jovens infratoras: comportamentos de risco e tabagismo”.
  • Coletivo Feminino Plural: “As mulheres e o tabagismo.  Uma nova questão na agenda feminista”.
  • Fernanda Fernandes: “A situação dos direitos humanos das mulheres na região de fumicultura no Rio Grande do Sul”.
  • Gênero, Mulher, Desenvolvimento e Ação para a Cidadania – GEMDAC: “Levantamento das condições socioeconômico, cultural e ambiental geral de mulheres fumantes em situação de vulnerabilidade social do município de Teresina-PI”.
  • Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde: “A Embalagem: suas implicações”.
  • Observatório da Mulher: "Desfazendo a cortina de fumaça".

Agora, os grupos escolhidos terão até novembro para apresentar seus projetos finalizados.

Durante o encontro foi lançada a publicação Impacto do Tabagismo na Saúde Feminina, com uma apresentação feita pela autora Edina de Araújo Veiga, ginecologista e obstetra consultora da ACT.

A Mulher e o Tabaco

O aumento da participação da mulher no mercado de trabalho e o crescimento do seu papel na sociedade fez com que a indústria do tabaco passasse a divulgar o cigarro como símbolo de emancipação e independência, além de sensualidade. Tal abordagem influenciou o consumo pelo público feminino, sendo inclusive criadas marcas de cigarro direcionadas especificamente às mulheres.

Após a elevação do consumo, hoje o que se observa são as conseqüências do tabagismo para a saúde feminina. No Brasil, dentre os diversos tipos de câncer, o câncer de pulmão é a 2ª causa de morte em mulheres (ocupava a 4ª posição na década de 90) e o AVC (derrame) é a 1ª causa de morte em mulheres jovens (entre 15 e 49 anos). Ambos são considerados doenças tabaco-relacionadas: 90% dos casos de câncer de pulmão ocorrem em fumantes, já em relação ao AVC, sabe-se que fumar duplica o risco de derrame e mulheres fumantes que usam pílulas anticoncepcionais têm risco ainda maior.

A mulher tabagista tem também um risco maior de infertilidade, câncer de colo de útero, menopausa precoce (em média dois  anos antes) e dismenorréia (sangramento irregular). 

Já em relação à gravidez, está comprovado que o fumo pode elevar o risco de aborto espontâneo, provocar partos prematuros, baixo peso ao nascimento e a morte súbita do bebê.

Crianças, jovens e o tabaco

Embora as empresas de tabaco aleguem publicamente que não querem que crianças e adolescentes fumem, seus documentos secretos revelam a verdade. Uma vez que a grande maioria dos fumantes começa a fumar antes dos 20 anos, as empresas de tabaco precisam promover seus produtos para os jovens para manter e expandir seus lucros. As empresas fazem isso de diversas formas, como por exemplo através do patrocínio de eventos culturais e esportivos, como a corrida de fórmula I, MotoCross, concertos de rock e outros eventos que têm forte apelo entre os jovens. Também apóiam medidas nas quais fumar é apresentado como algo para pessoas adultas, o que fomenta a vontade do jovem de fumar, já que este quer ser adulto. Essas medidas incluem a auto-regulamentação contra a venda de cigarros para menores e produção de material para a educação de jovens onde a liberdade de escolha individual é enfatizada em contraposição ao que dizem as autoridades e os pais.

Impactos na Saúde

As crianças sofrem as conseqüências do fumo passivo e ativo, entre elas capacidade pulmonar reduzida, desenvolvimento de asma e outros problemas respiratórios e infecções no ouvido.

Impactos Econômicos

O acesso das crianças às necessidades básicas como alimentação, educação e saúde pode ser prejudicado pelo gasto de seus familiares com tabaco. Pelo fato do tabaco ser uma droga que provoca dependência, os pais freqüentemente utilizam dinheiro das necessidades básicas para o tabaco, não como uma escolha, mas para suprir sua dependência.

As crianças empregadas no cultivo e manufatura do tabaco, em alguns casos, têm o acesso à escola dificultado ou o calendário escolar adaptado à safra do tabaco, estão sujeitas a condições de trabalho muito ruins, sofrem de problemas de saúde e recebem um salário miserável que as mantém na pobreza.

Questões sociais

O desejo das crianças em se tornarem independentes e sua rebeldia são explorados pelo marketing das empresas de tabaco, que associam o consumo do tabaco à liberdade e individualidade. Campanhas promovidas pela indústria do tabaco para supostamente prevenir a iniciação entre crianças e adolescentes têm o efeito de promover ainda mais seus produtos, uma vez que passam a noção de que fumar “é uma decisão adulta”. Numa campanha da Philip Morris (que foi autuada pela Anvisa), lia-se o seguinte slogan: “Fumar! Só depois dos 18 anos! Isso é legal”. Não é necessário ser um grande especialista em psicologia e/ou marketing para interpretar os efeitos desta campanha dentre os jovens.
As crianças imitam os adultos. Quando seus pais, irmãos, amigos e colegas fumam, a tendência é de que venham a fumar. Também são altamente suscetíveis à publicidade e à utilização de produtos do tabaco em filmes e na TV. Crianças e adolescentes prestam mais atenção à publicidade e tendem a fumar as marcas mais anunciadas do que os adultos.

O tabaco é a porta de entrada para outras drogas, incluindo o álcool e drogas ilícitas. São poucos os não-fumantes que utilizam outras drogas, e a maioria dos usuários de outras drogas começou com o tabaco.

A maioria das pessoas começa a fumar na infância e adolescência, uma idade em que ainda não se tem o conhecimento e o discernimento necessários para tomar decisões concernentes ao seu futuro, como a decisão de fumar ou não. Quando se tornam mais conscientes e querem parar já estão dependentes.

As empresas de tabaco freqüentemente se utilizam do patrocínio de eventos esportivos para promover o tabaco. Isso permite que associem o tabaco com a boa forma e também se beneficiam da popularidade de ídolos esportivos entre os jovens. Na realidade, fumar reduz drasticamente a capacidade pulmonar e consequentemente a boa performance nos esportes. Atletas profissionais sabem disso e tendem a rejeitar o tabaco em todas suas formas.

Direitos das Crianças

A OMS publicou recentemente um relatório intitulado Tabaco e os Direitos da Criança. O relatório documenta as formas em que a Convenção dos Direitos da Criança da ONU, ratificada pela grande maioria dos países membros, pode ser interpretada para a proteção das crianças contra o tabaco. Direitos específicos incluem:

  • O direito à informação sobre o tabaco e a indústria do tabaco
  • O direito de evitar trabalho perigoso na indústria do tabaco
  • O direito à sobrevivência e ao desenvolvimento, que pode ser prejudicado pelo gasto dos adultos com tabaco
  • O direito à proteção contra a fumaça de tabaco (fumo passivo)
  • O direito ao bem estar social, espiritual, moral e à saúde física e mental, que são violados quando a indústria do tabaco direciona a publicidade para as crianças.

O relatório também diz que “os Estados têm o dever de tomar as medidas legislativas e reguladoras necessárias para proteger as crianças contra o tabaco e garantir que seus direitos se sobreponham aos interesses da indústria do tabaco.” Carol Bellamy, diretora executiva da UNICEF, é citada no relatório declarando que as crianças “têm o direito de ser protegidas dos efeitos colaterais do tabaco, incluindo o desvio de dinheiro do orçamento familiar que poderia ser utilizado para despesas educacionais e de saúde, e da dor e perdas econômicas que ocorrem quando provedores adultos morrem cedo por causa do tabaco”.

 
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